Fisioterapia Intradialítica

O envelhecimento da população e o aumento da expectativa de vida, decorrentes da transição demográfica nas últimas décadas, contribuíram para mudanças no perfil epidemiológico dos brasileiros, aumentando a prevalência das doenças crônicas, entre elas a Doença Renal Crônica (DRC). A DRC refere-se a um diagnóstico sindrômico de perda progressiva e supostamente irreversível da função renal, ou seja, diminuição da filtração glomerular, uma vez que ocorre perda progressiva da função de um número cada vez maior de néfrons.

Definição

Considerada como um problema mundial de saúde pública, na maioria das vezes a DRC é diagnosticada quando o paciente já alcançou estado avançado da doença. Os primeiros sintomas são geralmente tardios, inespecíficos, inconstantes e despercebidos pelo paciente, instalando-se lentamente e tomando assento aos poucos.

Assim a terapia de substituição renal, denominada hemodiálise, é a terapêutica mais utilizada para tratamento, controle e manutenção vital de pacientes portadores com diagnóstico de DRC, e remove os solutos urêmicos acumulados e o excesso de água, e restabelece o equilíbrio eletrolítico e ácido-básico do organismo.

O número de pacientes com DRC que necessitam de hemodiálise cresceu de 42 mil, em 2000, para 122 mil em 2017, de acordo com a Sociedade Brasileira de Nefrologia. Esse processo de hemodiálise por período prolongado, pode desencadear inúmeras complicações sistêmicas como, fraqueza muscular periférica, fraqueza muscular respiratória, câimbras musculares, anemia, artralgia, osteodistrofia e alterações cardiopulmonares, gerando impactos negativos nas atividades de vida diárias, sociais e do trabalho, tornando o cotidiano monótono e restrito, favorecendo ao sedentarismo e a deficiência funcional.

Estudos sugerem que o tempo de hemodiálise influencia na qualidade de vida desses pacientes, destacando que quanto maior este tempo, piores são os indicadores de qualidade de vida observados.

Há aproximadamente 30 anos vem sendo discutida na literatura a utilização de programas de exercícios físicos visando a recuperação física e funcional de indivíduos submetidos à hemodiálise. “Os benefícios citados na literatura incluem melhora da capacidade funcional, redução dos fatores de risco cardiovasculares, melhora da tolerância ao exercício, melhora da tolerância à glicose e de problemas psicossociais”. (Moura et al, 2008)

Pacientes com DRC apresentam menor capacidade física e funcional quando comparados à população geral. Nesse sentido, alguns autores têm mostrado que um programa de exercícios aeróbios tem proporcionado melhora capacidade funcional, além de prevenir, reduzir e retardar a perda de capacidade física.

O sistema respiratório também pode ser afetado pela DRC e pela Hemodiálise. Alterações na função muscular respiratória, mecânica pulmonar e nas trocas gasosas são muito frequentes na DRC. A disfunção pulmonar pode ser o resultado direto da circulação de toxinas urêmicas, ou indireto, a partir da sobrecarga do volume no coração gerando edema agudo, anemia, supressão imunológica, calcificação extra-óssea, desnutrição, desordens eletrolíticas e desequilíbrio ácido-base. (Roxo, 2012)

Benefícios

Evidências demonstram de que o exercício aeróbio realizado durante a hemodiálise pode gerar melhora da eficácia da diálise. Segundo vários autores, esses benefícios ocorreram devido ao aumento do fluxo sanguíneo sistêmico e muscular gerado pelo exercício durante a hemodiálise.

As anormalidades estruturais e funcionais dos músculos são caracterizadas por miopatia urêmica, que se manifesta como atrofia e fraqueza muscular periférica e respiratória.A fisioterapia durante o processo, pode proporcionar ao paciente resistência para realizar atividades corriqueiras sem apresentar sinais de fadiga, desconforto e dispnéia. A melhora na capacidade funcional e na qualidade de vida são indiscutivelmente os benefícios mais relatados pelos pacientes, proporcionando maior aderência ao exercício e motivação em um ambiente monótono.

O tratamento fisioterapêutico na hemodiálise apresenta algumas particularidades. Os exercícios devem ser realizados durante as duas primeiras horas de diálise, antes que valores maiores que três litros de fluído tenham sido removidos, pois podem propiciar câimbras, espasmos musculares e instabilidade hemodinâmica, impedindo a prática de exercícios físicos.

O protocolo de exercícios terapêuticos é baseado clinicamente em atividade aeróbica e de fortalecimento muscular periférico e respiratório. A intensidade da intervenção fisioterapêutica deve obedecer ao aumento gradual da carga e das séries, mediante reavaliações fisioterapêuticas constantes, bem como as repercussões clínicas.

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Referências

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  • Brasil, Ministério da Saúde. Resolução RCD n.63/ ANVISA, de 6 de julho de 2000.
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  • Roxo, RS. Impacto de um protocolo de estimulação elétrica neuromuscular na função pulmonar e capacidade funcional em pacientes com doença renal crônica submetidos à hemodiálise.[Dissertação de Mestrado]. Curso de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, 2012.

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