O enfermeiro como perito criminal

Você sabia que o profissional enfermeiro pode exercer a função de Perito Criminal e usufruir de salários acima da média do mercado?

Os salários, no estado de São Paulo, eram de R$ 8.538,49, em 2015.

Além de uma boa remuneração, a atuação como Perito pode ser altamente desafiadora. Mas não é para todo mundo…

O que é um Perito Criminal?

Segundo a Sociedade Federativa Brasileira, Perito Criminal é o profissional que “está a serviço da justiça, especializado em encontrar ou proporcionar a chamada prova técnica ou prova pericial, mediante a análise científica de vestígios produzidos e deixados na prática de delitos”.

Vou contar uma experiência que tive com a acadêmica Patricia Miki, atualmente enfermeira. Tínhamos a curiosidade por saber como seria o dia-a-dia desses profissionais que lidam constantemente com a morte violenta, entre eles profissionais da Polícia Civil e do Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU).

E esse foi o tema que escolhemos para o seu Trabalho de Conclusão de Curso: “Presenciando a morte violenta: o desvelar de significados e sentimentos dos profissionais envolvidos”. Naquele trabalho buscou-se, principalmente, respostas para as seguintes questões: quais os sentimentos vivenciados por esses profissionais? Como esses profissionais lidam e se adaptam a essas situações do cotidiano profissional?

Estigmas

Essas profissões são conhecidas como “profissões da morte”, devido ao fato do trabalhador permanecer à espera de um chamado para entrar em ação e executar seu papel. Estigmatizados pela sociedade por trabalharem com um dos mais temíveis tabus – a morte – tocar em cadáveres dilacerados e mutilados e encarar a morte violenta, diariamente, exige do profissional enorme equilíbrio emocional.

A morte violenta é aquela causada por agentes externos, ocorrendo de forma abrupta. São enquadrados como mortes violentas os acidentes, homicídios e suicídios.

É claro que, quando se trabalha na área da saúde, nós profissionais precisamos lidar com a morte, e somos treinados para entender quais são os sinais e características de óbito.

Mas o Perito Criminal vai além. Ele precisa lidar com fatores que não encontramos na rotina de um hospital, onde lidamos com pacientes que estão doentes. O Perito trabalha também com os sinais abióticos.

Segundo Maranhão, os sinais abióticos podem ser divididos em:

  • Sinais Imediatos: Perda da consciência; insensibilidade; imobilidade e abolição total do tônus muscular; parada respiratória; parada circulatória.
  • Sinais Consecutivos: Resfriamento; rigidez; mancha verde abdominal (ocorre pela alteração das hemoglobinas, promovido pelo crescimento bacteriano no intestino) e dessecação (processo de ressecamento / extrema secura) por evaporação tegumentar.
  • Sinais Destrutivos: Putrefação (processo de decomposição dos tecidos) e maceração (os tecidos se enrugam e se desprendem aos pedaços, ocorre quando o corpo fica imerso em líquido).
  • Sinais Conservadores: Mumificação (o cadáver passa por uma rápida evaporação de líquidos, fazendo com que os tecidos adquiram um aspecto de couro curtido) e saponificação (os tecidos se transformam em uma substância gordurosa, com aspecto de cera, mole e coloração amarelada acinzentada.

Sentimentos

Durante a jornada de trabalho, os sentimentos podem ser mascarados pelo cumprimento da rotina. Trata-se de um cotidiano árduo e para suportá-lo é necessário buscar mecanismos de defesa.

Da pesquisa efetuada para a composição do TCC, podemos destacar algumas pergunta feitas aos profissionais entrevistados, e suas respostas:

Quais os sentimentos vivenciados por esses profissionais?

“Acho que o primeiro sentimento de quem começa a trabalhar com isso, acredito que seja o nojo, é difícil falar isso, mas na hora a gente sente uma certa repulsa dependendo do tipo de local, a gente pega por exemplo cadáver putrefeito, que aí o cheiro, o estado, os insetos e tal…seria o primeiro que a gente vivencia… infelizmente a gente acostuma”.

“O primeiro sentimento é uma revolta, de ver que às vezes a pessoa morre por coisas estúpidas… um sentimento de injustiça… querer fazer justiça, investigar da melhor forma possível para achar o autor e se possível deixar ele o maior tempo possível longe da sociedade”.

“Frustração, impotência, medo”.

“A morte de desconhecido eu não sinto… não tem envolvimento. Fico com dó em relação a família, isso é pior…”

“Medo daquela visão de morte violenta…”.

“Medo, terror, pavor… às vezes sentimento até de piedade”.

“A adrenalina que envolve a situação, particularmente não me deixa pensar… não permite que eu pense com sentimentos…”.

“Eu já tive pena, revolta, indignação, raiva…”.

Como esses profissionais lidam e se adaptam a essas situações do cotidiano profissional?

“Eu procuro não me concentrar muito, principalmente no rosto e na história em si, na história familiar, na situação, eu tento me conectar o mínimo possível, tento não associar com casos que eu conheça, com pessoas que eu conheço, pra não ficar carregando isso depois…”.

“A melhor forma que eu achei pra lidar com casos assim, seria tratar, infelizmente é a verdade, mas pra mim seria tratar o cadáver… como um objeto de estudo…”.

“Então eu chego num local de homicídio, eu encaro como um trabalho… mas quando eu saio eu não levo isso comigo, eu chego em casa… e não fico me remoendo com o que acontece, com o trabalho, eu deixo para, no próximo plantão, a gente voltar e recomeçar tudo”.

“Eu procuro não ver como um corpo humano mais, eu vejo aquilo como se fosse objeto na cena do crime, como se fosse uma cadeira ou qualquer outra coisa que está ali e eu vou ter que trabalhar com ele… e tem dado certo, eu saio do local… chego na minha casa e esqueço completamente, apaga da memória e está funcionando, porque se você se envolver com a cena é complicado…

“… O mecanismo de adaptação mais eficiente é o foco profissional… evitando envolvimento emocional, pensando de forma objetiva no seu papel na cena e não deixando os sentimentos aflorarem”.

“A gente tenta ser fria, manter uma distância da cena e dos familiares, de quem esteja a volta…”.

“Cuidar da minha espiritualidade, eu acho que isso é o que faz confrontar a morte de uma forma mais tranquila…porque não é fácil … mas quando você tem uma esperança, uma fé, isso lhe fortalece no sentido de entender, então meu mecanismo de adaptação é cuidar da minha espiritualidade”.

Vários sentimentos relatados estão relacionados aos atos praticados de forma cruel para com as vítimas de mortes violenta. Os sentimentos de tristeza, compaixão e piedade foram citados pelos entrevistados, principalmente, em relação aos familiares das vítimas.

Manter uma postura profissional é uma forma de se proteger e se distanciar das situações enfrentadas. As pessoas são transformadas em objetos como forma de excluir qualquer identidade humana e, assim, minimizar o impacto emocional.

Dra. Elizabeth Galvão

Doutora em Ciências (EEUSP), pós-graduada em Administração Hospitalar (UNAERP) e Saúde do Adulto Institucionalizado (EEUSP), especialista em Terapia Intensiva (SOBETI) e em Gerenciamento em Enfermagem (SOBRAGEN). É professora titular da Universidade Paulista no Curso de Enfermagem, e professora do Programa de Especialização Lato-sensu em Enfermagem em Terapia Intensiva e Enfermagem do Trabalho na Universidade Paulista.

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